Santana do Ipanema - quinta, 23 de novembro de 2017
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Marcas do Passado
02/10/2011
LEMBRANÇAS DA CASA VELHA
Remi Bastos
As nuvens passam como folhas secas que se desprendem das copas dos juazeiros e s√£o levadas pelo vento carregando consigo momentos vividos. Hoje me desfiz da vaidade e parei por um instante para observar as nuvens que deslizavam lentamente sob o c√©u dos meus pensamentos expondo a sua brancura √† dist√Ęncia dos meus olhos. Retornei a casa velha pela estrada empoeirada na subida da Baixinha entremeada por cercas de aveloz, ali, avizinhada por um cercado florido pelas catingueiras e marmeleiros em toda a sua extens√£o. √Ä sua direita um curral em ru√≠nas ainda conservava em seu dom√≠nio resqu√≠cios de excrementos bovinos; um chocalho enferrujado, colado ao mour√£o destru√≠do pelos cupins ainda exalava a lembran√ßa dos mugidos das vacas e das ordenhas realizadas pelo caboclo Durval. Algumas pinheiras √†s margens do redil em frente √† estrada principal exibiam seus galhos ressequidos, j√° n√£o tinham energias para abrir suas flores e receber o √≥sculo das abelhas, somente os sinais da presen√ßa de insetos e fungos fit√≥fagos eram vis√≠veis nos frutos enegrecidos. Todos esses encantos nost√°lgicos e melanc√≥licos revelavam os colares da casa velha de alvenaria com sua cor amarelo-clara bastante desbotada pelo tempo.
O seu acesso se dava por um port√£o de madeira de duas folhas, desajustadas e equilibradas por um ferrolho louco conjugado a um muro baixo e sem muita apar√™ncia. Logo a seguir um extenso terreno representava o jardim contendo no seu interior apenas alguns p√©s de cr√≥ton, manjeric√£o e comigo- -ningu√©m - pode cercados por pequenas rochas. A entrada √† sala de visitas se completava por interm√©dio de quatro degraus de tijolos onde existia um pequeno centro de madeira envernizado contendo algumas revistas de O Cruzeiro, quatro cadeiras com acento de couro e um porta-chap√©us com vistas para as duas janelas. Mais adiante existia um corredor estreito que limitava o acesso aos quartos de Dona Solidade e Benedito e de suas tr√™s irm√£s mo√ßas por parte de pai, Assun√ß√£o, Julieta e Marieta. Anexo ao quarto das meninas se situava a sala de jantar atrav√©s da qual se conectava por uma porta estreita a um dep√≥sito onde existiam dois grandes vasos de zinco para estocar feij√£o e farinha. Eu soube que o dep√≥sito teria sido uma casa de parede e meia onde morou e faleceu o av√ī de Benedito e pai de Seu Ant√īnio. O outro lado da sala de jantar era assediado por apenas um petisqueiro e uma porta com batente de onde se avistava um velho limoeiro. O √ļltimo compartimento era a cozinha enfeitada por uma mesa comprida com dois bancos de pela porco, um fog√£o √† lenha e um pote com √°gua situado em um dos cantos tendo na parte superior um porta copos fincado na parede. A porta da cozinha possu√≠a dois est√°gios independentes, um inferior que seria a porta propriamente dita e um superior que operava como janela. Da√≠ se tinha uma vis√£o melhor do cercado com a exuber√Ęncia das catingueiras estalando suas vagens numa forma natural de perpetuar a esp√©cie. Pelo lado direito da cozinha j√° no quintal existia uma grande cisterna coletora de √°guas das chuvas, era a salva√ß√£o de todos na √©poca das secas.
Zé Carvalho e seus irmãos Aderval e Ademir sob as ordens de Dona Lila e Seu Manezinho Carvalho vez por outra buscavam água na cisterna de Seu Antonio Vicente em um carrinho-de-mão.
Seu Ant√īnio Vicente era propriet√°rio de maior parte das terras que existiam nos limites de Santana com o S√£o Vicente, vivia o seu segundo casamento com Dona Solidade, progenitores de Benedito Abreu Soares onde viviam sob o mesmo teto na companhia das tr√™s lindas mo√ßas filhas mais novas do seu primeiro casamento. Foi neste mundo maravilhoso que desfrutei os momentos mais felizes da minha adolesc√™ncia. Cresci ouvindo o canto das rolinhas, do bem-te-vi, dos nhambus e das cordonizes no cercado. Atirei pedras com a minha peteca (baleadeira) nos p√°ssaros indefesos e corri atr√°s do pre√° nos labirintos; pisei nas areias escaldantes da minha terra e adormeci sob o v√©u crepuscular ouvindo o canto das andorinhas procurando abrigo no velho grupo escolar. Sempre que vou a Santana procuro fazer uma visita √†quela rua que foi um dos palcos da minha adolesc√™ncia e que atualmente ostenta o nome de Clem√™ncia Pereira Queiroz, ali onde sou tomado pelas l√°grimas da saudade. Um vazio toma conta de mim, j√° n√£o existe mais a casa velha, apenas o terreno baldio foi o que restou daquilo que teria sido um conto de fada. Fecho os olhos por um momento e tento buscar nas minhas recorda√ß√Ķes as Lembran√ßas da Casa Velha.

Aracaju, 29/09/2011
 
 
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