manoel augusto de azevedo
Estimados conterrâneos, nomeadamente os contemporâneos dos anos dourados (anos cinqüenta)...
Sabem, ao ler as mensagens e os “causos” no mural, cheios de lembranças, de saudades e de nostalgia, também reporto-me àqueles anos e me emociono às vezes, não necessariamente pela saudade, mas por olhar para trás e ver um longo caminho percorrido e tão poucas realizações. As mudanças em termos pessoais, para muitos de nós, foram, pra usar um termo em voga, “auspiciosas”, entretanto, para a nossa terra, para a nossa gente e para a nossa cultura, as mudanças se deram no caminho inverso, no sentido da degradação e do atraso. Gostaria, ah, como gostaria, de ver as “coisas” cor de rosa e verde esperança, como um “mangueirense” (na verdade torço pela Beija Flor) e só enxergar a pureza e a beleza da vida nas coisas, nos fatos, nas pessoas e no comportamento delas. Não consigo minha gente! Como não sou daltônico, creio que vejo tudo de acordo com cada realidade, isso não quer dizer que as minhas conclusões sejam as únicas verdadeiras. Como se sabe, tudo na vida é relativo e para cada “realidade”, seja objetiva ou não, existem pelo menos três verdades: a minha, a sua e a “verdadeira”, assim disse-nos o filósofo! Essa relatividade também nos leva a considerar aquela máxima de que o mais importante não é o fato e sim a versão...
Para aqueles que atingem a terceira idade realizados na vida, família criada, saúde e tranqüilidade financeira é como contornar o Cabo da Boa Esperança, até alardeiam : entrei na « melhor idade ». Enquanto que para aqueles que não tiveram tanto sucesso, e são a maioria, chegar à terceira idade significou navegar o mar revolto do “Cabo das Tormentas”! Para esses, que ainda não conseguiram se aposentar ou, quando conseguiram, mal conseguem prover o dia a dia da família, asseguro-lhes, caros companheiros, pela convivência mais amiúde, que não se cultiva saudade muito menos nostalgia, restam as lembranças, e muitas vezes mal lembradas...
Ao olharmos para trás, nos lembramos de um sistema educacional sério, porém bitolado, repetitivo e acessível apenas às classes mais abastadas da sociedade – até 1980 cerca de 50% da população brasileira era analfabeta e seus filhos não tinham acesso à escola, em nosso município mais de 60%. Hoje, teoricamente, há escolas para todos, porém, de baixa qualidade e apesar dos aportes consideráveis de recursos financeiros, essas escolas, se públicas são em maioria, desequipadas, irresponsáveis e desmotivadoras e, se privadas, em sua maioria, só pensa em faturamento. Esse mal gerenciamento leva ao caos em todos os níveis de ensino com comprometedoras repercussões na formação profissional e consequentemente nos valores éticos, morais e culturais do povo. Na saúde, a situação não é diferente. Se no passado eram poucos médicos, também é verdade que quase faziam milagres, por “amor à arte”, havia mais responsabilidade profissional e mais empenho em manter a vida. Hoje temos hospitais, aparelhos sofisticados, computadores… porém o que mais funciona são as “ambulâncias”, que por si só não impedem que os índices de mortalidade cresçam acima dos os padrões universais. Na segurança, ah que segurança! Para um Estado tão pequeno ou para uma pequena comunidade como a nossa – pouco mais de 25.000 habitantes na cidade e cerca de 20.000 na zona rural_, como se rouba! Como se mata! Como se agride! Como se vandaliza! Nem quando o coronelismo ou o chamado « banditismo » imperava, a situação era tão grave como a atual. Hoje vive-se a época da “bandidagem e da impunidade”, cabendo bem a propósito aquela expressão: É o fim...
Naqueles anos, apesar das restrições do mercado a uma pequena classe média, havia certa dignidade na pobreza. Nossa região polarizada por Santana do Ipanema era a terra do feijão, com direito a festa e tudo o mais. Tínhamos na região 20 usinas beneficiadoras de algodão, em Santana 3. Hoje, 50 anos depois, importamos o feijão de cada dia e todo o resto da nossa modesta cesta básica. Os mais pobres, que no passado produziam para seu sustento, dependem da “caridade governamental”. Em certas circunstâncias poderíamos até dizer: Que governo bom!
Na verdade, se um município como o nosso que outrora era praticamente autosuficiente na produção de alimentos primários, apesar da ignorância e da precariedade das técnicas empregadas, depende em pleno século XXI de milhares de cestas básicas todos os meses para alimentar o seu povo, o motivo não é outro senão a falta de compromisso dos governos que ao longo desses anos desmontaram as estruturas técnicas de pesquisa e assistência técnica que existiam em todo o Estado e em nosso município.
O Brasil caminhou nesses cinqüenta anos a passos cada vez mais largos guiados pela Embrapa e outros órgãos de pesquisa científica e tecnológica tornando-se um dos maiores produtores e exportadores de produtos agrícolas e pecuários do planeta, enquanto Alagoas e Santana do Ipanema se tornaram pedintes do pão de cada dia à mercê da boa vontade política. Involuimos no setor industrial, por pura inércia governamental. Nem se fala de incentivos ao empreendedorismo, apesar de se premiar quem nada empreende. Infelizmente prevalece a prática despótica mascarada de democracia, onde a luta pelo poder é mais forte, muito mais forte do que o ideal de se construir uma sociedade mais justa, onde “todos” se lembrem de cada etapa de suas vidas, com saudade e nostalgia!...
maas.
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