Santana do Ipanema - segunda, 06 de fevereiro de 2012
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08/02/2010
A RESSACA DE CARNAVAL DE BANDA MEL
 
“Não há nada de errado com a imaginação desde que ela seja criticamente controlada pelos fatos” Albert Einstein


Era uma manhã de quarta-feira de cinza. Fim de mais um carnaval, de um ano qualquer da década de oitenta. Pelas ruas de Santana do Ipanema, ainda desfilavam alguns foliões do “bloco da saudade”. Aqueles que teimam em não aceitar que o carnaval havia acabado. E que agora era, guardar a fantasia e voltar à realidade. Enfim, ir pra casa dormir e curtir a ressaca. E que carnaval, só no próximo ano. A música repetida por todos como uma espécie de lamento é:

É de fazer chorar
Quando o dia amanhece
Eu vejo o frevo acabar
Ó quarta-feira ingrata
Chegou tão depressa
Só pra contrariar

Lá pela rua do aterro - avenida Pancrácio Rocha- um grupo muito desconfiado vai dispersando. É o bloco dos “O que é que eu vou dizer em casa”, que acabaram de serem liberados da cadeia. Aprontaram durante os dias de folia e ficaram guardadinhos no xilindró. Em toda extensão da Rua Tertuliano Nepomuceno vários ex-foliões, dormem bêbados pelas calçadas. No largo da Praça do Comércio – em frente à Matriz de Senhora Santana- o saldo é idêntico. A decoração antes alegre e colorida, agora parece tão triste. Balança ao vento. O cheiro de cerveja misturado com o de urina, vindo do bequinho da Igrejinha de São Sebastião, espalha-se no ar. Restos de alegorias, talco e maizena são levados pelo vento. O calçamento está grudento. As ruas carecem de uma chuva, pra lavar a alma da cidade. Deus providenciará. Começa hoje a quaresma.
Banda Mel, ao sentir os primeiros raios de sol esquentando a calçada em que dormia - na Barão do Rio Branco - se acorda. A muito custo, coloca-se sentado. Uma senhora vem subindo a ladeira. É pessoa humilde, vem do bairro da floresta. É uma devotada católica, que está indo pra igreja. Vai pra Missa das CINZAS. Leva consigo, uma estatueta do padre Cícero, em pé, vestido na batina preta. Leva pra o padre benzer. Banda mel, zonzo pelo efeito do álcool e cego pela claridade solar, consegue abrir um olho. Ao ver aquela mulher, vindo em sua direção, faz um apelo que só quem já esteve, de ressaca, em tal situação conseguiria entender:
-Dona Maria, mim dê um pouquinho dessa Coca litro!


Fabio Campos 03/02/2010 Contato fabiosoacam@yahoo.com


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