O auditório da Academia Alagoana de Letras tornou-se pequeno para acolher tanta autoridade e convidados na noite do lançamento do livro As Pernas da Cobra, de autoria do Dr. Humberto Gomes de Barros, alagoano e ministro do Superior Tribunal de Justiça, agora aposentado.
Faz mais de três anos que o festivo evento foi realizado, que também contou com a presença de inúmeros contemporâneos do escritor, entre os quais meu colega Cláudio Fernando Oiticica Lima (Cau), seu amigo de infância, que me fez a gentileza de apresentar-me ao ilustre alagoano.
Datado de 14/10/2005, o autógrafo no livro adquirido recebeu do escritor os seguintes e generosos termos: “Para o Djalma, que sabe escrever, com o abraço do futuro colega.” Se o “futuro colega” do autógrafo estiver associado à minha candidatura a uma cadeira da Academia Alagoana de Letras, diria que o meu malsucedido pleito não terá passado de ousada pretensão de escritor sonhador. Citaria, a tal propósito, a irônica frase do poeta Mário Quintana, que também passou por semelhante processo: “Todos esses que aí estão/atravancando o meu caminho/eles passarão.../eu passarinho.”
Iniciada a leitura logo após a festa, de repente cheguei à última história com o sabor da primeira. Fez-me lembrar, o livro, alguns viventes de Santana do Ipanema. Como cidade de interior que se preza, minha cidade também teve seus mentirosos, cachaceiros, boêmios, mulherengos e espertos políticos. Tem sido, por conseguinte, inesgotável fonte de pesquisa para quem gosta de mergulhar nesse paciente trabalho de estudar e analisar nossos antepassados, curiosidades, valores e o inevitável lado pitoresco de nossa gente.
Dei boas risadas com as travessuras dos personagens que desfilam nas 202 páginas de boa leitura.
Na página 47, no final do conto “Linha 123”, por exemplo, o leitor avaliará o gesto de fidalguia do autor ao ceder sua poltrona no ônibus a uma jovem que se dizia “grávida e cansadíssima”. Ao observar, depois, que a passageira não tinha nenhuma barriguinha, perguntou-lhe o tempo da gravidez. A resposta da sem-vergonha veio de imediato: “Tem somente meia hora. Ainda estou exausta!”
O desavisado e puritano leitor pode até chocar-se com a linguagem picante, explícita, do livro. Nada demais, pois esse modo inconfundível de expressar-se do nordestino, presente no livro, confere mais autenticidade à narrativa. É o linguajar do homem do semiárido, afeito às intempéries da natureza, ou o do trabalhador da zona da mata, de corpo impregnado do cheiro dos canaviais. Afinal, homens fortes, valentes, capazes de correr atrás de uma bicada e de um rabo-de-saia de primeira, do tipo de Maria Moura.
Pensando bem, nem sei se cobra tem pernas...
Afinal, é livro para descontrair e divertir o leitor, como bem o disse na orelha o escritor Paulo Barbosa de Sousa: “É um convite à prazerosa leitura.”
Maceió, fevereiro de 2008.
|