Valho-me sempre da conhecida expressão latina “carpe diem” – aproveite a vida – para exortar as pessoas, sobretudo os jovens do meu tempo, a investirem em emoções, não deixando nada para fazerem depois. Bem o disse, a propósito, o poeta argentino Jorge Luís Borges: “Não percam o agora.”
Aprecio, desde moço e com extrema responsabilidade, a atmosfera de festas, de bailes, de boates, de viagens, sempre levado pelo prazer de dançar, de divertir-me, de celebrar a vida da melhor forma, porém sem luxo, gastança ou exibicionismo.
Andei pelo Brasil e pelo mundo afora, não muitas vezes, encantando-me com as paisagens, com as belezas da natureza, conhecendo lugares, civilizações e culturas diferentes, procurando entender, também, as pegadas dos que fizeram história aqui e alhures. Nem me dispensei de desfilar em escola de samba, em meio a tantas luzes, holofotes e sensuais requebros de mulatas no sambódromo do Rio de Janeiro. De dois cruzeiros fascinantes, por exemplo, guardo boas recordações. Um, pelo rio Amazonas, outro, pelo Atlântico sul.
Aproveitar a vida eis a questão.
Minha preocupação primeira, como jovem, era estudar e trabalhar, tendo tudo começado como aprendiz de balconista em lojas de tecidos, ferragens e miudezas, lá mesmo em Santana do Ipanema, no chão nativo. O Ginásio Santana foi minha primeira fonte do saber. (Estudar e trabalhar para ser gente, como dizia minha avó Bilia. Na verdade, ainda não sei que conceito, no entender dela, teria a palavra “gente”.) Depois, funcionário público Federal e bancário do Banco do Brasil. A este, aprovado em concurso público, dediquei todo o meu tempo e talento, exercendo cargos em comissão e os de administrador de agência, assunto sobre o qual andei tratando em outras crônicas. No BB foram mais de 30 anos de efetivo exercício e de dedicação exclusiva.
Trabalhar não me impediu de viver todas essas emoções. Nem me impediu, ademais, de lutar para ser profissional correto, cidadão voltado para o trabalho, para a família, para os filhos, membro de clube de serviço, de associação de imprensa e de academia de letras, embora nunca desejasse ser paradigma de nada, tampouco para ninguém.
Uma vez aposentado, procurei administrar, com sucesso, a ociosidade. Aliás, ocioso nunca me senti como tal, porque fiz da aposentadoria um viver prazeroso, considerando-a, acima de tudo, grande e precioso prêmio pelos tantos anos de trabalho duro realizado.
O tempo, implacável, andou muito depressa até o outono aterrador. Deveria eu ter percorrido, há muito e com paciência, todos os canteiros para sentir o perfume de outras rosas dos jardins existentes à margem da estrada da longa caminhada.
Pensei que o destino fosse traçado ao bel-prazer da gente, como se planeja um trabalho e uma tarefa numa empresa ou um empreendimento qualquer. Para mim, ledo engano, pura falácia, porque ele, às vezes, nos impõe caminhos diferentes, surpreendentes e inevitáveis, até necessários para um novo caminhar de emoções e de novos sentimentos. O falecido professor Ib Gatto Falcão, tratando do assunto, referia-se às “superiores determinações do destino”.
Agora, refaço a vida a meu modo, assimilando valores de uma sociedade mais moderna, sem os preconceitos de outrora e sem aquelas preocupações do mundo ao meu redor. Generoso como tem sido Deus comigo, permito-me acreditar, afinal, que a felicidade, que não escolhe tempo nem idade, não deve ser pura e simples quimera, mas realidade palpável, hoje, aqui ou em qualquer latitude.
Maceió, fevereiro de 2011.
|