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15/02/2011
CAVALHEIRISMO E O FLANELINHA
 
Dois comportamentos diferentes, saídos de pessoas pertencentes a segmentos sociais distintos, serviram-me de mote para esta crônica: a falta de cortesia de uma, certamente de classe média alta, e a curiosa observação de outra, um jovem educado flanelinha que ganha a vida “guardando” carros no bairro da Pajuçara.
Outro dia, num consultório médico, enquanto a funcionária atendia a um telefonema, apressei-me em abrir a porta para que uma elegante senhora entrasse na sala de espera, certo de que estava eu praticando uma boa ação. Para surpresa de todos, ela, além de não agradecer a gentileza, não se dignou cumprimentar ninguém dali com um “bom-dia” ou pelo menos com um simples sorriso.
O cavalheiro é homem de boa sociedade, de boa educação, cortês. Ser cavalheiro e gentil não faz mal a ninguém. Basta a qualquer pessoa um sorriso, um gesto nobre, para que a vida se torne mais saudável, sem grosseria, sem estupidez. Infelizmente, gestos desse tipo fazem parte do dia a dia nas salas de espera de consultórios, mais parecendo que cavalheirismo, cortesia e boas maneiras são coisas realmente fora de moda. Ali ninguém dá atenção a ninguém: um assiste a programa de TV, outro folheia revista velha, mais outro está mudo e assim continua mudo.
Disse Charles Chaplin: “O sorriso é um idioma universal. Em qualquer lugar do mundo, todos o entendem.” Mário Quintana, a propósito, completa: “Quero sempre ter um sorriso estampado em meu rosto.”
Ser gentil é a chave do sucesso no relacionamento humano, em casa, no trabalho, na rua. Cria, ademais, clima de boa vontade entre as pessoas, sejam conhecidas ou não. O exercício da empatia é a melhor regra de convivência, sobretudo nesta quadra da vida, tão cheia de estresses, angústias, ansiedades, frustrações, luta pelo emprego, pela sobrevivência, de corre-corre, de violência e de trânsito engarrafado nas grandes cidades.
Antes que o ensino de boas maneiras chegue às escolas, como currículo obrigatório, ele deveria estar presente no lar, na família, sendo ministrado, sobretudo, às crianças e aos jovens, para que eles possam crescer respeitando-se e respeitando os mais velhos também.
Na canção Amante à Moda Antiga, Roberto Carlos e Erasmo Carlos, que fazem a grande dupla romântica de sucessos da MPB, também observaram semelhante fenômeno: “Sou do tipo de certas coisas, que já não são comuns em nossos dias: cartas de amor, beijo na mão, mandar flores e chamar de querida a namorada...”
Dias atrás, ao retornar do jantar anual de confraternização da Academia Maceioense de Letras, surpreso fiquei com a inusitada observação do educado flanelinha que ficara “guardando” meu automóvel. Ao me vê abrindo a porta do carro para minha acompanhante, exclamou, alegre: “Que bonito, moço! Pensei que esse tipo de cavalheirismo não mais existisse, fosse coisa do passado!” Não sei por que aquele jovem educado e bem articulado ainda continua formalmente sem emprego!
Esqueçamos, pois, as frustrações e as angústias diárias e pratiquemos a empatia, a cortesia, o cavalheirismo. Não custa nada. Afinal, a vida é bela. Vamos curti-la da melhor forma possível e transformá-la, efetivamente, em lago de águas plácidas.
Maceió, fevereiro de 2011.


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