O registro de fato novo me faz reproduzir boa parte do texto original desta crônica.
Desde o longínquo ano de 1535, quando aportou no Nordeste, trazido de Portugal ou da África, o jegue jamais tinha sido tão exaltado publicamente, a ponto de se tornar samba de enredo de escola de samba na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro.
Milhares de vozes em delírio entoaram o refrão do samba “Mais vale o jegue que me carregue, que o camelo que me derrube, lá no Ceará”, da Imperatriz Leopoldinense, campeã do carnaval de 1995.
Foram buscá-lo na história do segundo reinado brasileiro.
Domesticado há uns 6.000 anos, o jerico estendeu-se pelo mundo e melhor adaptou-se às regiões quentes, como o semi-árido nordestino, onde pacientemente “ajuda o sertanejo a tocar o seu dia-a-dia”, segundo a letra da música.
Em seu livro O Jumento, Meu Irmão, Padre Antônio Vieira, ex-deputado federal pelo Ceará, disse que a presença histórica do jegue no destino da humanidade é algo que se confunde com a realidade do veículo-animal de todos os tempos.
Na verdade, antes das estradas de rodagem, do asfalto e do advento do caminhão-pipa, era o pobre jumento que fazia o abastecimento d’água. No lombo carregava ancoretas ou latas para aplacar a sede do nordestino no período das grandes estiagens.
Lá estava também ele nas estradas poeirentas, sob sol ardente e fustigado por chicotes, carregando trapos ou mobílias humildes, puxado por retirantes fugindo da seca implacável, como os Fabianos da vida.
Dócil e resistente, cantado e decantado na literatura regional ou nas músicas de Luiz Gonzaga, ninguém imaginava fosse ele exaltado na passarela do samba em meio a mulheres bonitas e de poucas roupas, ao ronco de cuícas e ao percutir de tamborins.
Tinha razão o falecido prefeito Adeildo Nepomuceno Marques, que fez erguer, em 1972, um monumento ao jegue em uma das principais avenidas de Santana do Ipanema, pelos serviços que o paciente animal havia prestado à população da cidade.
Há pouco tempo, para efeito de asfaltamento, o novo traçado da BR 316 eliminou a Praça das Coordenadas construída à entrada da cidade pelo prefeito Hélio Cabral (1956-1960). Com isso, a estátua do jumento teve que ser removida de lá para o início dos canteiros da mesma rodovia, em frente ao prédio da AABB local.
Afinal, a praça foi extinta, mas a estátua, não. Daí a dupla vitória do jegue: no carnaval do Rio de Janeiro e ao ressurgir em outro local, reafirmando sua condição de símbolo da pertinaz luta que o santanense enfrentou contra a falta d’água.
Maceió, julho de 2008.
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