Para o nome de fantasia do seu estabelecimento comercial da Praça Sergipe, aqui em Maceió, o proprietário da Farmácia Galeno inspirou-se, com certeza, na vida e no exemplo do célebre médico e filósofo grego. Ao farmacêutico devo uma gentileza – tola até, mas de muita significação – que nunca foi publicamente revelada. Somente agora, passados trinta e quatro anos, dela me lembrei ao procurar, dias atrás, a farmácia no citado local.
Quando uma alma de Deus aparece para prestar ajuda a alguém em dificuldade, em aflição, aí se pode avaliar a verdadeira importância de uma gentileza, de um favor. De solidariedade, afinal. Vale o exemplo de uma batida no trânsito, de um acidente na estrada, de uma emergência qualquer, em casa ou na rua.
Em 1974, chegávamos, eu e minha esposa, com nosso filho com menos de dois anos de idade e com pneumonia ao consultório do Dr. Milton Hênio de Gouveia. Diante de nossa angústia, foram de alívio e conforto as primeiras palavras do médico: “Parece-me que vocês estão mais enfermos que a criança.”
Ali, na clínica infantil (AMI), a criança ficou internada sob os cuidados do também pediatra Dr. Paulo Roberto Chagas, médico que, infelizmnte, faleceu muito moço, faz algum tempo.
Para atender a imperativos funcionais, inadiáveis, tive que regressar a Santana do Ipanema no dia seguinte, deixando minha esposa a cuidar do garoto. Com receitas à mão e com o valor dos medicamentos possivelmente acima do dinheiro disponível no momento, ela, desconhecida cliente e angustiada, recebeu inusitado gesto de confiança do proprietário da Farmácia Galeno. O farmacêutico prontificou-se a vender-lhe os remédios de que necessitasse, sem exigência de pagamento à vista. Interessava-lhe, então, a imediata recuperação do doente, o que de fato aconteceu dias depois. Felizmente não houve necessidade de utilização dos préstimos do atencioso farmacêutico, de quem recolhi o belo e oportuno gesto de solidariedade humana.
Sertanejo acostumado com os exemplos de firmeza de propósitos, de cumprimento de palavra empenhada, de obrigações liquidadas no vencimento, tenho a gratidão como o mais forte sentimento do homem interiorano. Daí a lembrança do atencioso farmacêutico. Na verdade, a modesta farmácia, de única porta de ferro, corrediça, não mais existe no local. Dela, como lembrança, existe apenas o prédio comercial.
Naqueles dias de aflição, após estacionar meu automóvel no centro de Maceió, tratei com um velho amigo, ali mesmo, da enfermidade do meu filho. O flanelinha de plantão a tudo ouviu, antes de dizer-me que iria “ficar olhando” o carro. Não lhe dei muita atenção. Apenas levantei o polegar e fui embora.
Um ano depois, voltei a estacionar o automóvel no mesmo local. Antes do habitual “vou ficar olhando o carro”, perguntou-me, então, o mesmo flanelinha: “Doutor, seu filho ficou bom?”
Recordo-me, hoje, de tudo aquilo, acompanhando, orgulhoso, o empenho do filho engenheiro na redação das considerações finais de sua tese de doutorado.
Maceió, maio de 2008.
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