A preferência, normalmente, é pelo bar mais popular da cidade ou por outro ambiente qualquer, espaçoso e movimentado, onde possa o torcedor assistir, em grupo, a jogos da Copa do Mundo. Aí, necessariamente, deverão ser consumidas, em boa escala, bebidas alcoólicas e saboreados tira-gostos especialmente preparados para os dias de jogos da seleção brasileira de futebol. Tudo isso em meio a expectativas e emoções de evento esportivo tão grandioso que é capaz de despertar os mais diversos matizes de paixão no torcedor brasileiro.
Em cenário mais ou menos semelhante a este, acompanhei, pelo rádio, a transmissão da partida final da seleção brasileira de futebol, campeã do mundo em 1958, em campos da Suécia. A data era 29 de junho, dia cinzento e frio. O local, o Tênis Clube Santanense, que o grupo escolhera para tamanha emoção, ampliada com a transmissão da Rádio Globo ou da Rádio Bandeirantes, as mais ouvidas, então, em Santana do Ipanema. Nessa época não se falava no colosso da televisão. Não obstante o clima de otimismo do grupo, ainda permanecia em cada um de nós a triste lembrança da tragédia de 1950, no Maracanã.
Ao me permitir tratar de futebol, quase esquecia o motivo principal da crônica, espécie de dívida de gratidão para com um bom santanense que a morte o afastou do convívio dos amigos, faz algum tempo. Foi preciso tratar daqueles momentos finais e emocionantes da copa de 1958 para lembrar-me do dono do bar do clube, que naquela ocasião a todos servia com gentileza e solicitude. Ele também torcia, também vibrava.
Louro, pele fina, corado, boa altura, narigudo, educado, fala mansa, atencioso. Do sítio Barriguda para a cidade, viera ele de família de vários irmãos, trabalhadores, parecidos uns com os outros, a mesma compleição, o mesmo jeito de falar, a mesma gentileza no trato. Miguel Luís da Silva, ou simplesmente Miguel da Barriguda, era eficiente e zeloso funcionário da prefeitura, depois administrador de obras do município. Atuante vereador de um mandato só. Incondicional admirador e fiel escudeiro do então prefeito Adeildo Nepomuceno Marques, a este serviu com extrema dedicação e absoluta confiança, permanecendo a seu lado nas horas mais difíceis por que passou o grande líder político sertanejo.
Resumia sua filosofia de vida numa palavra mágica – servir. Gentil, atencioso, solidário, estava pronto a prestar favor a qualquer amigo, sem medir esforço ou sacrifício.
Por algum tempo, moramos na mesma rua, razão maior de nossa amizade e da amizade de minhas filhas com suas filhas Sandra, Sônia, Vera Lúcia, Susana e Mônica, matriculadas no mesmo colégio da cidade. Dona Djanira, a esposa, a seu pedido e gentileza, foi a responsável pelo café sertanejo que me foi servido naquela manhã do dia em que deixei Santana do Ipanema, em dezembro de 1975, transferido para Maceió.
Aposentados, ele e a esposa, e com os filhos empregados em Maceió, tempos depois também deixou sua cidade natal e passou a residir em Barra de São Miguel. Alegava estar sob a proteção de Nossa Senhora Santana, também ali padroeira do lugar.
A notícia da morte foi sentida por todos aqueles que privavam de sua amizade.
Assisti, desolado, à saída do seu corpo do necrotério do hospital, aqui em Maceió, levado pelo filho Paulo Roberto e por familiares para o cemitério de Santana do Ipanema, sua morada final.
Maceió, março de 2008.
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