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09/04/2008
O ABRIGO DA MANCHA VERDE
 
Sempre apreciei o pitoresco, o caricato, o engraçado, a partir dos tipos populares de minha terra, notadamente o contador de histórias fantasiosas, o mentiroso, temas que têm sido por mim contemplados em crônicas publicadas em jornais e em livros. Tipos populares que compõem, necessariamente, a paisagem humana das cidades, tornando-as mais alegres, mais divertidas, mais coloridas. Todo o mundo sabe que cidade de interior é pródiga nesse particular. Santana do Ipanema, por exemplo, não poderia fugir à regra.
Vez por outra, visito minha cidade natal a convite para festas, para rever amigos ou para, afinal, matar saudades. Por ocasião dessas visitas a Santana do Ipanema, conterrâneos me contam fatos engraçados, pitorescos, que aconteceram na cidade, os quais reproduzo em crônicas, dando-lhes o inequívoco sentido da sadia brincadeira. São casos que me são contados muitas vezes tão logo recebo o amistoso abraço do reencontro. Histórias sem o uso do grosseiro ou do ridículo, publicadas com o intuito de divertir o leitor e, ademais. divulgar as coisas da terra, seu folclore, sua alegre e divertida gente.
Há pouco lá estive. Desta feita, contaram-me um fato curioso, que não sei se é verdade ou mentira. Na margem direita da rodovia BR 316, praticamente no perímetro urbano, o visitante verá o verde escuro que sobressai numa pequena e compacta área de mata que sobrou da antiga propriedade de seu Nozinho, de todos ali conhecida por “Baixio”.
Bom que tal aconteça, pois se trata de área verde preservada, salutar para a vida humana e necessária para a beleza da cidade, posto que o lugar, semi-árido nordestino, está sempre a enfrentar o problema das secas periódicas e a experimentar a inclemente ardência do sol sertanejo. Deram-me a curiosa explicação sobre a existência do capão de mato, ainda que não venha sendo ele preservado com tal propósito. Bem ali mesmo, ao abrigo da mancha verde existente, com árvores copadas, urubus-comuns fazem segura e permanente morada, criam filhotes e se encarregam, sem qualquer custo para o erário, da limpeza e da purificação da cidade e de arredores.
Ave da espécie dos catartídeos, o urubu é condenado no Brasil por ser nocivo à saúde dos rebanhos bovinos, podendo transmitir-lhes febre aftosa e carbúnculo. Repugnante e de mau augúrio, por causa deste sinistro preconceito o paraibano Augusto dos Anjos, o imortal poeta da amargura e do tétrico, a ele se referiu, dizendo: “Ah! Um urubu pousou na minha sorte!”
Ali morando juntos no capão verde, aqueles urubus não se encarregam apenas das impurezas do lugar, comendo com voracidade as carnes em decomposição. Cuidam, também, das de outros lugares, além dos limites do município. Em dias de feira, por exemplo, voam em grupo para banquetear-se ao lado dos matadouros das cidades vizinhas, indo até a Águas Belas, no vizinho Estado de Pernambuco. Ao cair da noite, suficientemente alimentados, retornam ao natural abrigo da mancha verde acima referida.
Chamados, afinal, de urubus feirantes pelos mentirosos da cidade, no dia seguinte empreendem todos eles nova viagem com a mesma finalidade, indiferentes aos olhares curiosos e às más línguas dos observadores de plantão.
Verdade ou mentira?
Maceió, março de 2008.


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