Em minha visão de criança, tudo ali no sítio Gravatá, em Santana do Ipanema, era ampliado: a casa, a estrada, o riacho, a craibeira, o cajueiro, o carro de bois, a lua cheia.
Também em minha cidade, a torre da igreja matriz parecia espetar o céu sertanejo de poucas nuvens. Não me cansava de olhá-la, extasiado, vendo o tempo tremer lá em cima.
De frente para o nascente, a meia-água tinha apenas dois quartos. Um, do casal, onde era concebida a filharada. O outro, dos meninos que iam nascendo de onze em onze meses. Nessa mesma visão de criança, a meia-água era grande, muito grande, do tamanho da família imaginada por meus pais. Família que chegou a dez filhos.
Límpida e resplandecente, a lua cheia iluminava o terreiro da casa, a estrada, a mata ainda virgem. Também ilumiava o curral das vacas que remoíam tranqüilas, absortas, recolhidas para a ordenha da manhã.
No lugar, noite de infinita paz. As rajadas de vento vinham do lado nordeste do baixio. De vez em quando, ouvia-se o longínquo latido de cães perdidos na noite. No açude de meu avô, ali bem perto, a sinfonia de sapos encantava a gente.
Não se tinha notícia de violência contra os moradores do lugar, salvo o que se contava dos cangaceiros de Lampião, que nunca ousaram andar por aquelas protegidas bandas. Não se falava de homem na Lua nem de poluição ambiental.
Bonita lua cheia, sedutora, do tamanho da rodeira do carro de bois lá de casa. No coice, ainda me lembro, Potuguês e Cacheado; na dianteira, Moreno e Dengoso. Bois obedientes e firmes na canga. Puxavam, valentes e dispostos, o arado e o carro pesado, sob a ameaça do ferrão do intrépido carreiro.
Também ampliado, do tamanho do mundo, era o coração de minha mãe. Assim também o era seu macio colo, que a todos acolhia de uma vez para o afago amaroso, para a cantiga de ninar de todas aquelas noites tranqüilas, repousantes, de suprema paz.
Em silêncio para reflexão, rezava-se o terço, o pai-nosso, a ave-maria.
Sempre me fascinou a lua cheia, desde pequeno. Encantadora e deslumbrante, surgia ela lá por trás da serra do Gugy. Rica e inexplorada serra, fonte inesgotável de água cristalina e de minerais outros. Repleta de frutas de todas as épocas. A ela se chegava por íngremes veredas, por estradas tortuosas.
A gente não percebe o tempo passar tão depressa.
Assim fui crescendo. Um dia aquela felicidade interiorana ficou para trás. Soluçando e com o nó de choro contido na gargante, deixei o sítio. Para trás ficaram as histórias de trancoso de tio Zeca, os amigos da escola, a menina que eu amava, o mágico luar, o céu de cintilantes estrelas, o banho no riacho Gravatá, as novenas de maio, os folguedos, o festivo canto dos passarinhos nas madrugadas do lugar.
Disse o poeta Carlos Drummond de Andrade: “Quando vim da minha terra, não vim, perdi-me no espaço, na ilusão de ter saído.”
Pois bem. Crescido, cheguei à cidade grande. Fiquei assombrado com o ruido dos automóves no asfalto, com o rumor das ruas, com os perigos que cercam a gente de hoje. Logo percebi que era muito curta a distância que ia da ingenuidade interiorana à desconfiança das pessoas da cidade. Matreiras, maldosas. Deparei-me com a falta de sossego das famílias, em casa e na rua. Assalto, seqüestro, roubo, crime, drogas, homens sem palavra, político safado, corrupção. Nunca tinha ouvido falar nessas mazelas.
À beira-mar, fascinado, encantei-me com o murmúrio do mar, com o vento a açoitar o coqueiral da praia, com o crescente clarão prateado da linha do horizonte. A lua cheia estava para nascer. Belo e raro espetáculo que a natureza produzia ao suspirar o verpertino crepúsculo.
Mas minha lua bonita de outrora, que nascia límpida e resplandecente lá por trás da serra do Gugy, parece, de uns tempos para cá, ter mudado de cor, de brilho. O quarto minguante tem-me trazido preocupação, ultimamente. Ah! como é confortadora a sabedoria de D. Helder Câmara, que costumava dizer que as fases da lua têm algo a ver com a vida da gente! Depois do quarto minguante, há um recomeçar de esperança. Novamente virão a lua nova, o quarto crescente e, finalmente, a lua cheia, com seu esplendor, com sua promessa de bonança, a recompor a vida e a encantar e a inspirar os cronistas e os poetas do mundo.
Maceió, fevereiro de 2008.
|