Dizia-me José de Albuquerque Malta, o saudoso Zé de Bené, que homens do seu tempo, quando casavam, costumavam mudar de nome, referindo-se ao apelido, a título de sobrenome, que inapelavelmente ganhavam.
Filho de tradicional família de Mata Grande e aposentado dos Correios e Telégrafos, José Malta adotara Santana do Ipanema para morar e viver os últimos anos de sua vida de boêmio e seresteiro. Era cidadão muito conhecido e estimado na cidade. Brincalhão, inteligente, espirituoso e contumaz gozador da humanidade. Tinha o hábito de mexer com meninos, doidos e cachaceiros, infernizando-os de certa maneira. Pelos meninos, porém, admirado; pelos doidos, odiado; pelos cachaceiros, sempre procurado para lhes pagar uma bicada. Dele recolhi vários causos, histórias e aforismos já publicados em livros e em crônicas.
Aproveitando – quem sabe? – o que ele dizia naquele tempo, nossos legisladores, muitos anos depois, aprovaram a lei que permite ao marido, no casamento, passar a usar o sobrenome da mulher, se assim o desejar.
Claro que nosso personagem tudo fazia em termos de gozação, de brincadeira, embora sem ridicularizar ou constranger ninguém. Com certeza, fazia-o para arrancar gargalhada do mais sério ou sisudo circunstante.
Não teria, então, Zé Malta avançado no tempo, embora tratasse do assunto como simples e pura brincadeira interiorana? Segundo ele, a mulher, ao exigir do marido o suprimento de alimentos para a cozinha ou despensa, assim se expressava, encaminhando-o para as compras: “João, leite”, “João, café”, “João, feijão”, “João, arroz”, “João, pão”, etc. Para ele, o marido estaria, assim, com o nome mudado.
Pois bem. Há alguns anos, costumo fazer, semanalmente, minhas compras de frutas e verduras no mercadinho mais próximo de minha casa, onde conheço nomes e apelidos dos seus funcionários, todos meus amigos, também deles recolhendo interessantes e curiosas histórias.
Em qualquer sociedade ou grupos humanos, há pessoas diferentes no andar, no falar, no relacionar-se, no comunicar-se, no proceder. Umas são mais alegres, bem-humoradas, outras mais reservadas, caladas, mais comedidas. Em assim dizendo, estou sempre a escutar histórias e façanhas amorosas de Pompeu, alegre e comunicativo funcionário do mercadinho, sujeito conhecido e festejado como o mulherengo do grupo. Sem cerimônia, conta-me suas aventuras com aquele ar de inveterado e insaciável garanhão. Tudo, com certeza, fantasia e não passando de bravata, conforme me asseguram as más línguas dos invejosos colegas de trabalho.
Outro dia, não o encontrei no trabalho. Informaram-me que Pompeu estava a gozar de folga e que, para surpresa de todos, havia mudado de nome. Melhor dizendo, de apelido. É que no dia anterior, sua esposa, aflita, havia telefonado para o dono do mercadinho, pedindo-lhe notícias do “marido DVD”. Como nada entendi, explicaram-me, a respeito, que se tratava de “marido que deita, vira e dorme”. Ah, bem.
Depois disso, espero ver, brevemente, a cara de pau de Pompeu a me contar mais uma aventura amorosa por ele vivida na semana anterior.
Maceió, novembro de 2010.
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