Santana do Ipanema - sexta, 18 de maio de 2012
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11/08/2006
BARBUDOS E CABELUDOS
 
O doido Justino, violento, de meia idade, perambulava pelas ruas de Santana do Ipanema, às vezes falando alto – a esmo e agressivamente, às vezes resmungando. Arrastava de uma perna com enorme ferida no tornozelo e tinha barba longa, compacta e nojenta. Guardei comigo, inconscientemente e por algum tempo, essa dolorosa imagem colhida na paisagem humana de minha cidade natal. Naquele tempo de menino, não tinha ouvido falar, amiúde, de arquétipo, estereótipo e tipos similares, investigados cientificamente.
Via nos livros que cientistas, filósofos, intelectuais e políticos também usaram barba longa, compacta. Eram fotos de eminentes figuras, homens sérios, austeros, respeitáveis, circunspectos. Certamente incorruptíveis.
Barba longa, de uma forma ou de outra, sempre me fazia lembrar da figura do doido Justino. Depois, essas imagens dissiparam-se paulatinamente, com o passar do tempo.
No Banco do Brasil, cheguei ao cargo de subgerente de agência muito cedo. A área de pessoal ser-me-ia o mais difícil e sensível encargo administrativo de minha carreira. Ali estava a relacionar-me com gente de formação, cultura, sentimentos e aspirações diferentes. Diria, verdadeira prova de fogo.
Nos anos 60 e início de 70, a revolução de costumes que ocorreu no mundo inteiro mexeu com padrões e valores tradicionais. O fenômeno dos Beatles de Liverpool, por exemplo, com sua música eletrizante e cabelo de corte ousado, sacudiria a mocidade da época. Antes, tivéramos os barbudos da revolução cubana a empolgar a juventude latino-americana.
Barbudos e cabeludos surgiram, daí em diante, como praga em todos os segmentos da sociedade moderna, mundo afora. Na agência de Santana do Ipanema não havia, até então, cabeludo nem barbudo. Mas eles foram surgindo naturalmente, ao irremediável sabor da moda.
Andei tentando persuadir um e outro colega a que não usasse essa extravagância pessoal no trabalho. Sem resultado. O colega Luiz Antônio de Farias, por exemplo, excelente e disciplinado servidor, logo aderiu à moda nascente, passando a usar aquela barbicha de bode pai-de-chiqueiro, que lhe daria a alcunha de Capiá. Os códigos internos do Banco, consultados, não permitiam, genericamente, aquilo que a sociedade não consagrasse. Mas o mundo estava mudando os costumes.
Em 1971, convocado para participar de curso intensivo para administradores, dei com os costados em Brasília. Durante sessenta dias freqüentei aulas que o Banco ministrava e visitei gabinetes de sua Direção-Geral. Ao entrar nas ante-salas, lá encontrei muitos barbudos, incluindo até chefes de alto nível administrativo, logo por mim associados à figura do doido Justino de minha cidade.
Restou-me, então, conformar-me com os novos tempos e esquecer o problema de minha agência. Se lá era permitido, aqui também o era, e ponto final.

Maceió, agosto de 2006.




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