Santana do Ipanema - sexta, 18 de maio de 2012
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19/01/2012
ELETRICIDADE NO CORPO
 
Aproveito a deliciosa leitura da crônica “Olhos que Ficaram...”, de autoria de Paulo Abrantes de Oliveira, para contar mais um fato pitoresco que ocorreu em Santana do Ipanema, faz muitos anos. Referida crônica está inserida na Antologia editada em 2011 pela Real Academia de Letras de Porto Alegre.
De boa cepa e escrita, este paraibano de Sobral é gente ligada por laços familiares e afetivos ao poeta santanense José Pereira Monteiro. Há pouco tempo aqui esteve ele para admirar as belezas naturais de Alagoas, deliciar-se com a nossa culinária e abraçar velhos amigos. No Sítio Ouro Preto, aqui na Serraria, por exemplo, participou de lauto e comemorativo almoço e assistiu à entrega de comenda e títulos conferidos ao poeta anfitrião, em merecida e oportuna homenagem que lhe prestava a comunidade maçônica alagoana.
Na rápida visita, ao admirar Maceió e encantar-se com a exuberante paisagem do litoral alagoano, lembrou-se, a propósito, da poesia do saudoso Noaldo Dantas, também paraibano, que, entre outras coisas bonitas sobre Alagoas, disse: “Escrevi, certa vez, que Deus, além de brasileiro, era alagoano. Em verdade, não se cria um estado com tanta beleza e cumplicidade.” Também atento à hospitalidade alagoana, aos belos pontos turísticos daqui e ao azul-turquesa do mar da Pajuçara, Paulo Abrantes completou: “Maceió vive dentro de cada um de nós.”
Com mais outra crônica, “O Entardecer em Pombal”, também de pura sensibilidade poética e de vivos tons nostálgicos, Paulo Abrantes, com certeza enriqueceu a Antologia, para agrado e admiração dos seus leitores.
Na crônica “Olhos que Ficaram...”, inicialmente citada, recheada de sentimentais relembranças, disse ele: “Busquei um velho dicionário e li: o olho é um órgão dos animais que permite detectar a luz e transformar essa percepção em impulsos elétricos.”
Lendo “impulsos elétricos”, logo me lembrei do meu tempo de adolescente em minha cidade natal, quando então me contaram o tal fato pitoresco. Pedindo desculpas ao ilustre e gentil autor, permito-me deixar para trás o belo texto das crônicas citadas e continuar a conversa de hoje.
Pois bem. Até o início da década de 1950, por aí, moradores do interior do município de Santana do Ipanema, como afinal de todo o interior nordestino, largavam seus pagos e procuravam São Paulo em busca de trabalho e de realizações de sonhos. Tempos depois, de lá retornavam bem vestidos, com dinheiro no bolso, falantes, com novo sotaque, cheios de novidades ou curiosidades, às vezes até mentindo.
Por essa época, seu Isaías, de tradicional família santanense e cujo sobrenome provinha dos fundadores da cidade, era proprietário de padaria, fazendeiro, depois delegado de polícia. Não tinha papas na língua. Certo sábado de feira, achegou-se ao balcão de sua padaria uma dessas singulares figuras, a entabular conversa sobre o que, entre outras coisas, vira ou soubera de curioso em São Paulo: “Sabe, seu Isaías, temos eletricidade no corpo.”
Pronto, era o que faltava, afinal, ao comerciante para encerrar a conversa: “Sei não. Só acredito se você acender uma lâmpada em seu fiofó!”
Maceió, janeiro de 2012.



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