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09/12/2011
SOCORRINHO
 
Idosos não perdem a memória, às vezes ficam esquecidos. O fascinante do ser humano é que detalhes de um passado mais distante se perpetuam na mente. Consegui programar minha memória, recordo apenas coisas boas, as ruins apaguei-as para ser feliz.
Lembro bem, eu era menino, ano da graça de 1947, tinha 7 anos, morava na Avenida da Paz. Último dia de novembro minha mãe deu um presente à família, nasceu Socorrinho, última dos cinco filhos. Alguém apareceu com a recém nascida nos braços para mostrá-la aos irmãos. Eu fiquei curioso ao ver a criança chorando, me emocionei, feliz da vida. Aquela menina chorona tornou-se uma das figuras mais importantes de minha existência.
Nossa infância na praia da Avenida e no riacho Salgadinho foi de liberdade e alegria. Na aurora de minha vida, nos meus 12 anos queridos, eu percorria toda redondeza pescando ou pegando caranguejo. Meus pais criaram os filhos com sabedoria e generosidade, entretanto, menino é malvado, Socorrinho devia ter quatro ou cinco anos, eu já rapaz, pegava caranguejo pelo casco, ele abria as patas enormes, maldosamente eu amedrontava, achegava o bicho brabo perto do rosto dos pivetes, Socorrinho foi a vítima número um. Até hoje tem pavor a caranguejo, sequer sabe o gosto de uma saborosa caranguejada.
Certa época fui para Escola Militar, peguei um trem em Maceió até o Recife de onde viajei para Fortaleza. Durante 12 horas o trem correu entre pequenos morros, canaviais verdes em contraste com o céu azul, me vinham lembranças, meus pais, meus irmãos. Disfarçadamente chorei.
Perambulei 13 anos pelo Brasil, férias sempre em Maceió. Certa vez Socorrinho me confidenciou, estava paquerando, me apresentou seu namorado, Clailton, a partir desse dia ganhei outro irmão. Está gravada em minha mente a figura de Clailton na varanda de nossa casa, tocando violão, cantando: “Oh cachaça amiga, não há quem me diga que não tens valor... e de saudade eu morro, vem em meu SOCORRO mais outra lapada”. Minha afinidade é tanta com Socorrinho que Clailton costuma dizer que só tem ciúmes de mim e de Chico Buarque de quem Socorrinho é fã de carteirinha.
Em 1967, promovido a capitão, voltei a morar nas Alagoas. Nada mais queria na vida; solteiro, morando com o carinho, casa e comida dos pais e irmãos; de quebra, uma Maceió bonita, festiva, me encantou. Nessa época, dos irmãos apenas Socorrinho estava ainda na casa do General e Dona Zeca. Foi uma fase bonita e feliz de minha existência. Socorrinho era minha companheira, minha amiga para todos os cantos, festas, casamentos, Zinga Bar. Eu adorava paquerar suas amigas. Ela fazia não gostar, dizia estar preocupada com possível sujeira de minha parte, mas no fundo eu sabia, tinha maior orgulho do irmão.
Nunca tive desentendimento com Socorrinho. Aliás, tive uma única briga. Certa vez discutimos, não lembro o motivo. Dia seguinte, ela emburrada não falou comigo, raiva mesmo, ranzinza. Eu pensei, ela tinha razão. Socorrinho não só me perdoou, como me abraçou emocionada quando ao entrar em seu quarto, uma surpresa: sua cama estava coberta de rosas. Foi a única maneira que encontrei em pedir desculpas.
Em 1970 me casei, logo depois foi ela. Socorrinho tornou-se um esteio na família. Sempre foi a primeira chegar aos problemas, nas dificuldades da família, nos piores momentos, na hora da morte, como também na hora da alegria. Ela herdou de Dona Zeca o amor às festas, à família, ao natal, ao ano novo. Sua casa sempre foi cheia, Clailton feito o General, apoiando.
Está fazendo 60 anos daquela cena gravada em minha mente, a menina nos braços não sei de quem, sendo mostrada aos irmãos. Desde aquele momento veio nossa bem querência, nossa cumplicidade, amizade, o apoio mútuo, até os dias de hoje.
OBS- “Esse texto faz parte do livro, MENINOS DA AVENIDA, organizado por Lelé Lima, 306 páginas, 257 fotografias, histórias da vida da cidade contada em crônicas de Paulo Ramalho, Guilherme Palmeira, Cuca, Sônia Cardoso, Lelé, Mendonça Neto, Albertina Lima, Eurico Uchoa, Humberto Gomes de Barros, João Kepler, Mozart Cintra, Murillo Mendes, Paulo Silveira, Ricardo Peixoto, Chiquinho Nemésio, Milton Hênio. Será lançado dia 16 dezembro a partir das 18 horas no Bar Barroco em Jaraguá. Todos convidados.”

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